23 novembro 2016

REVIEW | O último dia de um condenado


Título Original: O último dia de um condenado
Autor: Victor Hugo
Editora: Prefácio
Data: 2002
Páginas: 160
ISBN9789898231130
Classificação Pessoal: 
Goodreadsaqui
Temáticas: Consciência, liberdade, justiça


Sabem há quanto tempo tenho este livro na minha estante? Há anos... já estava farta de lhe limpar o pó. Por isso, resolvi pegar-lhe...

Primeiro livro que li do Victor Hugo e... estou rendida! Que clássico tão delicioso de se ler... tão forte, tão cru e, por vezes, tão tocante.


Tal como o próprio título nos indica, esta é a história das últimas horas de um condenado à morte; um homem que afirma ter uma doença, "uma doença mortal, uma doença feita pela mão dos homens" (pág. 45). Regista, por isso, os seus pensamentos e a sua vivência na prisão, até ao dia da sua execução. Tal como o autor indica, este livro "não é mais do que uma defesa, directa ou indirecta, como se quiser, da causa da abolição da pena de morte" (pág. 141).

(...) os homens são todos condenados à morte 
com adiamento indefinido. 
Que foi então que mudou assim tanto na minha condição?
(pág. 13)

Fechado dentro de quatro paredes, afirma que "tudo é prisão à minha roda; encontro prisão sob todas as formas, tanto sob a forma humana como sob a forma de grade ou de ferrolho. Este muro é a prisão em pedra; esta porta é a prisão em madeira; estes carcereiros são a prisão em carne e osso. A prisão é uma espécie de ser horrível, completo, indivisível, meio casa, meio homem" (pág. 57).


Dentro dessa prisão, o condenado apercebeu-se que o tratamento que anteriormente fora de alguma aspereza, acabou por se ir modificando com o passar dos dias, até que consegue descobrir o dia da sua execução pelo comportamento dos que o rodeiam... o dia em que o director da prisão em pessoa o visita e pergunta "em que poderia ser-me agradável ou útil" (pág. 55). Seguindo-se a visita do padre, para lhe dar uma última benção:

-Meu filho - disse-me ele -, estais preparado?
Respondi-lhe em voz fraca:
- Não estou preparado, mas estou pronto.
(pág. 59)

Gostei desta ironia que o autor conseguiu transmitir, não só através das suas palavras, mas também das acções destas personagens, conforme o dia da execução ia chegando. Como se, de alguma forma, elas se sentissem culpadas e benevolentes com o condenado e, de certa forma, até com peso na consciência, pela acusação. Para além do padre e do director da prisão, há um arquitecto que vai medir as paredes, para uma remodelação e que informa - como se isso fosse interessar a uma pessoa que vai ser decapitada em poucas horas - que "dentro de seis meses esta prisão estará muito melhor" (pág. 89) e um novo guarda que acredita que "os mortos que perecem assim vêem a lotaria antecipadamente" (pág. 92). 



E no meio disto tudo, sabermos que bastaria apenas uma única palavra do rei para que esta execução fosse cancelada, sentimo-nos arrebatados por um sentimento de compaixão pelo protagonista. O sentimento mantém-se quando este homem nos fala da sua filha Maria que já não via há um ano e que, aquando da sua visita ao calabouço, ela já não mais reconhece o pai. A dor é partilhada com a personagem e é esmagada pela descrição deste episódio.


E eis que chega o momento tão esperado. Num ambiente descrito quase como uma festa, inúmeros habitantes deslocam-se ao local público da execução, prontos para o espetáculo. Mas nem aí o autor se priva da sua ironia:

"(...) o arrepio causado pelo aço ao tocar-me o pescoço, 
fizeram estremecer os meus cotovelos e obrigaram-me 
a soltar um urro abafado. A mão do executor tremeu.
- Senhor - disse-me ele -, peço-lhe desculpa! Magoei-o?
Estes carrascos são mesmo homens muito afáveis."
(pág. 132) 


Um livro escrito de uma forma brilhante e simples, que nos faz reflectir sobre a justiça e a crueldade do acto da pena de morte, assim como o papel da sociedade no meio disto tudo.

"Mas, há quem replique que é necessário que a sociedade se vingue, 
que a sociedade castigue. 
Nem uma coisa nem outra. A vingança sabe ao 
indivíduo, o castigo a Deus.
A sociedade está entre ambos. A punição está acima dela, 
a vingança abaixo. Nada de tão grande ou de tão 
pequeno lhe assenta bem. Ela não deve "punir para se vingar"; 
deve corrigir para melhorar".
(pág. 153).


Um livro que toda a gente devia ler!

Cinco estrelas... gordinhas!

18 novembro 2016

REVIEW | Onze semanas, Ernani Lemos


Título Original: Onze Semanas
Autor: Ernani Lemos
Editora: Chiado Editora
Data: Setembro de 2015
Páginas: 241
Classificação Pessoal:
Goodreadsaqui
Temas: solidão, maus tratos, reencontro, perdão


Quero começar por vos dizer que este era um livro que me despertava algum interesse, tanto pela sua sinopse como pelo facto de ser muito pouco conhecido, nestas lides de canais e blogues literários. No entanto, depois de ver o vídeo de opinião da Tati Feltrin (aqui) e da Ju (aqui), decidi solicitar o envio à Chiado Editora, para opinião.

E vou começar pelo fim: que livro tão bom!! Recomendadíssimo! Apenas duas coisas que não gostei mas... já aí vamos.

Onze semanas é a história de Cláudia, uma mãe acamada com uma doença terminal, que apenas pretende atar as pontas soltas da sua história de vida e reconciliar-se com a sua filha Meg. Cláudia nunca teve uma vida fácil, foi mãe ainda adolescente e teve que abdicar dessa mesma juventude para crescer um pouco mais depressa do que as raparigas da sua idade, para iniciar uma nova vida, ao lado do namorado e do seu bebé.


Ao longo das páginas - das nossas e das de Cláudia, uma vez que ela escolhe escrever um diário para dar a conhecer o seu passado a Meg - é-nos apresentado o passado destas duas personagens e a sequência de acontecimentos que terão levado Meg a sentir-se tão desprezada pela mãe e tão pouco acarinhada, acontecimentos estes que culminaram, entre tantas outras coisas, com o seu afastamento progressivo. 


Você era minha mãe e as mães precisam ser velhas. 
E você era uma velha carrancuda que estava sempre cansada e reclamando. 
No meio de todo aquele cinza, eu não enxergava a sua cor e te via feia. 
Com o meu pai era o contrário. 
Ele parecia sempre bonito, claro, vibrante, mesmo por trás da fumaça.
(pág. 27)

Todavia, sentindo a mãe no limiar da vida, Meg desloca-se ao hospital para obter respostas a tantas das suas dúvidas. Cláudia troca-lhe um pouco as voltas, pedindo-lhe que conte alguns episódios da sua vida, alguns episódios associados a este ou aquele sentimento, prometendo em troca dar-lhe algumas das páginas do diário que escreveu.

E é assim que vamos conhecendo o percurso destas duas mulheres, que se vão encontrando por entre páginas manuscritas e conversas naquele quarto de hospital.


Este livro prendeu-me do início ao fim. Muito bem escrito, muito próximo do leitor, não só na escrita como no relato da história, que facilmente podemos identificar como a relação de tantas mães e filhas do nosso quotidiano. 

Gostei da delicadeza com que o autor nos falou do sentimento de pertença, de abandono, de solidão e de afecto, da alegria do reencontro entre duas tristes almas que a vida, e acontecimentos mal compreendidos, afastaram por completo. 

Onze semanas, John. 
Foi o tempo que eu tive para conhecer de verdade a minha mãe.
(pág. 238)


As personagens estão muito bem desenhadas, sendo muito fácil criarmos ligação com as mesmas. Adorei o facto de a Meg ter uma relação muito próxima com as cores e estas adquirirem um significado especial nesta ou naquela situação. Adorei! Cláudia também é uma personagem muito bem delineada que, apesar de angustiada no início da narrativa, se nota que vai, aos poucos e poucos, experimentando a leveza da partilha dos fardos que carregou ao longo da sua vida. "E demorou demais para eu entender que ao decidir seguir em frente com o inferno constante que me aguardava, eu fui mais valente do que jamais imaginei que seria capaz." (pág. 203)


Nota-se, ao longo da história, que esta personagem vai ficando cada vez mais livre e liberta desses fantasmas, até se desprender por completo da âncora que a mantinha presa a esta mundo. Gostei também de Sandra, irmã de Cláudia, que tomou conta de Meg durante alguns anos, que deixa "no ar" a ideia de que, muito provavelmente, também ela passou por situações semelhantes à da irmã mas que, como nenhuma delas o expressou oralmente, o segredo se mantinha fechado em cada uma delas. "Como eu te disse outro dia, acho que sua mãe e eu passamos por muitos dramas parecidos, mas nunca tivemos coragem de falar uma com a outra sobre isso. Talvez tenha sido nosso maior erro." (pág 231).



Pois muito bem... e o que não gostei, afinal?
Não gostei da relação entre Meg e John. Achei completamente desnecessário o aparecimento deste último, mesmo quando Meg precisa de desabafar quando sai completamente alterada do hospital, depois de ver a mãe. No meu ponto de vista, faria muito mais sentido que ela desabafasse com uma amiga.

E depois, não percebi a lógica de ela deitar o diário da mãe fora, nos momentos finais da narrativa. Qual a lógica disso?! Era necessário que o diário deixasse de estar em sua posse? Então por que não fazer com que ela o perdesse ou se esquecesse dele? Parece-me muito mais plausível do que atirá-lo para o lixo, depois de tudo o que ela passou para descobrir o seu passado e da importância daquelas páginas.



A nível da edição impressa, adoro esta capa, desde a fonte da letra, à ilustração e suas cores. O papel é amarelo e meio rugoso - mais um ponto a favor!


Fora isto, retomo o que disse no início: recomendo esta leitura para quem gostar de um bom relato. Não é uma narrativa com um clímax wow, não. É um relato de duas personagens que foram separadas por circunstâncias da vida, mas que se encontram nos momentos terminais de uma, para conhecerem os caminhos do passado.

Já leram? O que acharam? Ou ficaram curiosos? Contem-me tudo!!